Igreja Evangélica Metodista Portuguesa

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Entrada Ecumenismo Conselho Português de Igrejas Cristãs

Conselho Português de Igrejas Cristãs

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Uma caminhada ecuménica
autores: Manuel P. Cardoso; Ireneu da S. Cunha; Nelson P. Horta; José M. Leite
copyright: Conselho Português de Igrejas Cristãs; Figueira da Foz, Outubro de 1996
 
 
 
Há quase 50 anos houve conversações entre dirigentes não católico romanos portugueses com vista à criação de uma Federação de Igrejas Evangélicas Portuguesas, mas não foi possível concretizar tal objectivo.
 
Sentia-se a necessidade da existência em Portugal de um organismo que servisse como elo de ligação das Igrejas portuguesas e que fosse um instrumento de cooperação e companheirismo. Havia já a Aliança Evangélica Portuguesa, mas essa representava apenas indivíduos que nela estivessem inscritos, e houve, por isso, quem visse na Federação a solução ideal, pensando, muito provavelmente, no exemplo da França, onde a Federação Protestante tem tido uma acção admirável, ou da Itália, com a sua Federação das Igrejas Evangélicas, ou mesmo na Federação das Igrejas da Alemanha.
 
Mas uma Federação de Igrejas Evangélicas ou Protestantes, pelo seu próprio nome, seria restritiva. Uma igreja que não se identificasse com este ramo de Cristianismo, como é o caso da Igreja Velho Católica, da Igreja Ortodoxa ou mesmo da Igreja Anglicana, para já não falar da Igreja Católico Romana, obviamente não poderia associar-se a um tal organismo. Na França, por exemplo, quando o espírito ecuménico avançou e a cooperação entre protestantes e ortodoxos e católicos se tornou um facto, foi necessário criar-se um novo organismo a que foi dado o nome de Conselho das Igrejas Cristãs da França.
 
Antes dos franceses, dirigentes eclesiásticos de Portugal viram que, melhor que criar uma Federação Protestante era criar logo um Conselho Ecuménico das Igrejas. A ideia das federações de Igrejas Protestantes ou Evangélicas teve a sua razão de ser quando, ainda no século XIX, o movimento ecuménico iniciava os seus passos, tendo como horizonte apenas a unidade entre protestantes. Onde ainda existem Federações a sua acção pode continuar a ser preciosa, mas não tem sentido criar novas Federações.
 
Em quase todos os países de maioria cristã e mesmo em lugares onde o Cristianismo é minoritário (caso do Médio Oriente, por exemplo) foram-se formando organismos com designações como "Conselho Australiano de Igrejas", "Conselho Ecuménico da Dinamarca", "Conselho Cristão de Moçambique", mas cuja natureza é serem agrupamento nacional das Igrejas que decidem actuar em conjunto. São tecnicamente designados por Conselhos Ecuménicos de Igrejas ou Conselhos Nacionais de Igrejas. No anuário do Conselho Mundial de Igrejas de 1995, sob designação de "National Councils of Churches" (Conselhos Nacionais de Igrejas) aparecem 88 organismos, entre os quais o Conselho Português de Igrejas Cristãs.
 
 
O Conselho Português de Igrejas Cristãs, que é costume abreviar com a sigla COPIC, nasceu de uma proposta feita no dia 12 de Maio de 1962 no seio da Comissão lntereclesiástica Portuguesa. Essa Comissão, de resto, era já a prova de que o espírito de cooperação e orientação ecuménica já existia em Portugal, pois ela for a criada por sugestão do presbiteriano Michael P. Testa e juntou, além da Igreja Presbiteriana de Portugal, a Igreja Evangélica Metodista Portuguesa e a Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica. A CIP tinha constantes contactos com o Conselho Mundial de Igrejas e foi, desde a sua fundação em 1956 até ser substituída pelo COPIC, um instrumento importante da acção social das Igrejas que a compunham e um lugar de aprofundamento do espírito de tolerância e abertura que caracteriza o ecumenismo.
 
Foi, pois, numa reunião da Comissão Intereclesiástica Portuguesa que apareceu a proposta de se criar este novo organismo. O proponente foi o Dr. Leopoldo de Figueiredo, médico e musicólogo de grande talento, que na CIP representava, ao lado do seu Bispo, D. Luís Pereira, a Igreja Lusitana. A acta dessa reunião diz o seguinte:
 
"Foi em seguida dada a palavra ao Sr. Dr. Leopoldo de Figueiredo que falou sobre a necessidade de desenvolver o ecumenismo em Portugal, o qual precisa de ser dinâmico e não estático. Para tal, torna-se indispensável, disse, uma união das Igrejas sinodais. Sugere a organização de grupos de pessoas interessadas das diferentes Igrejas de Norte e no Sul, para estudo destes problemas, e promover-se a realização de um retiro no qual tomem parte todos os pastores, no intuito de se afirmar o espírito ecuménico. Apresentou depois a seguinte proposta, cujo teor é apenas para base do início da discussão: «Conselho Nacional de Igrejas» - Artigo 1º - Afim de que entre as diferentes Igrejas Evangélicas portuguesas possa desenvolver-se um espírito ecuménico, para acordo dos problemas comuns de evangelização e cooperação mútua, e possibilidades de contacto dos diferentes sistemas eclesiológicos e estudo comparado da sua teologia, num nível superior e especulativo, é criado em Portugal o Conselho Nacional de Igrejas, com representação oficial das denominações de que se compõe."
 
Embora o Dr. Leopoldo fosse já por essa altura um homem de grande experiência e cultura, é interessante verificar que há na sua proposta, rigorosamente elaborada, alguma candura. Uma candura que mais o enobrece, pois ilustra sem dúvida o provérbio que diz "quem mal não pensa, mal não vê". Essa candura está no supor que as "diferentes Igrejas Evangélicas" estariam naquela época prontas a associar-se num tal tipo de Conselho. Não sabia o generoso filho do primeiro Bispo-eleito da Igreja Lusitana que o facto simples de, já na apresentação da sua proposta falar da necessidade de desenvolver o ecumenismo em Portugal estava a dizer algo que ainda por muitos anos provocaria a zanga de muitos?
 
A proposta do Dr. Leopoldo de Figueiredo foi aprovada por unanimidade pelos restantes membros da Comissão, cujos nomes registamos: Dr. Luís Henrique da Silva e Rev. Alberto Aspey, pela Igreja Evangélica Metodista Portuguesa; Sr. Américo da Silva Baptista, Rev. João Severino Neto e Dr. Michael P. Testa, pela Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, e Drs. Luís Rodrigues Pereira e Leopoldo de Figueiredo, pela Igreja Lusitana.
 
Depois, nos trabalhos preparativos do novo organismo, vieram a juntar-se outros nomes - Revs. Mário Ferreira Neves (presbiteriano), Ireneu da Silva Cunha, Francisco Abel Lopes e Dr. David de Almeida (metodistas), Drs. Daniel Pina Cabral e David P. Pereira (Igreja Lusitana) e Rev. José Manuel Leite (presbiteriano). No dia 27 de Junho de 1967 a CIP deu por terminada a discussão, nesta fase, dos Estatutos e pediu às Igrejas que os aprovassem nos seus respectivos Sínodos.
 
 
A data oficial do começo das actividades do COPIC foi o dia 10 de Junho de 1971, feriado nacional em memória do Poeta da gesta nacional.
 
Um projecto que começara quase três anos depois da proposta do Dr. Leopoldo de Figueiredo (o Centro Ecuménico Reconciliação) acabou por avançar mais rapidamente, e foi já nas instalações deste Centro de Buarcos, Figueira da Foz, que os dignitários da Igreja Metodista, Igreja Lusitana e Igreja Presbiteriana, "acompanhados de pastores e muito povo das três Igrejas", conta a Acta da Fundação, "procederam (... ) à dedicação a Deus do referido Conselho".
 
O Rev. Ireneu da Silva Cunha, pastor metodista, tomou posse como Secretário-Geral, cargo que desempenhou até Junho de 1984, quando foi ocupar o cargo de Superintendente-Geral da sua Igreja. A representar o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) esteve o Rev. Dr. Heinrich Puffert, que foi orador oficial, usando Ezequiel 37, 15-28 como texto da sua homilia.
 
Deve dizer-se, entretanto, que a presença do representante do Conselho Mundial de Igrejas não significava que a nova organização portuguesa tivesse laços formais com o Conselho de Genebra. Na verdade, só recentemente se vem falando da figura de "membro associado" que um conselho nacional de Igrejas pode ter em relação ao CMI, mas naqueles dias e até hoje o vínculo do COPIC ao CMI é apenas de tipo espiritual, que vem do facto de mutuamente procurarem, nos respectivos níveis, promover o ecumenismo e servirem as sociedades onde estão inseridos. Em inglês, a expressão usada nessa altura para definir as relações do COPIC e conselhos congéneres com o CMI era "working relationships" (relações operacionais).
 
Em breve se reconhecia que, com a criação do COPIC, a Comissão lntereclesiástica Portuguesa, perdia a sua razão de ser, e esta foi dissolvida em 26 de Março desse mesmo ano de 1971.
 
Para sede do COPIC foi indicada a morada da igreja-lar Emaús, um programa conjunto da Igreja Metodista e da Igreja Presbiteriana constituído por uma "igreja doméstica" e um lar de estudantes que funcionavam na Rua Henriques Seco, 14, em Coimbra. Esse programa era dirigido pelo Rev. Ireneu Cunha também.
 
Desde a primeira reunião da sua Direcção se percebe que não faltarão temas para ocuparem aqueles que se empenham na vida do COPIC: organização da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; acção junto dos emigrantes portugueses; cooperação com o Conselho Mundial de Igrejas; relações com a Conferência das Igrejas Protestantes dos Países Latinos da Europa; actividade diaconal; assuntos relacionados com Bolsas de Estudo; retiro anual dos pastores das Igrejas-membros; estudo do financiamento das Igrejas e dos seus Projectos Sociais.
 
As próprias relações das três Igrejas portuguesas com Igrejas e outras organizações cristãs de além fronteiras ganham novo alento graças à existência do COPIC, pois cada Igreja membro passa a enviar mais vezes delegados seus a reuniões internacionais onde as relações se enriquecem.
 
 
Pode lamentar-se que não tenha havido nesses anos da preparação do COPIC um esforço da parte das três Igrejas que o fundaram para tentarem envolver outras neste projecto. Terá havido entre os responsáveis ecuménicos - o Dr. Leopoldo de Figueiredo, entretanto, foi-se ocupando de outros assuntos - a percepção de que qualquer esforço nesse sentido estaria votado ao malogro. O facto é que, na maioria das outras Igrejas não católicas portuguesas, não pareceria viver-se um clima adequado à promoção do ecumenismo. A adesão ao COPIC de qualquer outra Igreja além das que o fundaram pareceria uma ideia bastante peregrina. O anti-ecumenismo tinha o apoio evidente de um número muito grande dos evangélicos portugueses, no meio dos quais circulavam publicações com a chancela de Carl McIntire, fundador do Conselho Internacional das Igrejas Cristãs, formado em 1948 em oposição ao CMI, também formado nesse ano.
 
Por iniciativa do Secretário-Geral Ireneu Cunha foi enviada a informação da criação do Conselho à Convenção Baptista Portuguesa, a única entidade evangélica alvo desta atenção, talvez porque muitos pastores do COPIC têm formação e convicções relativamente próximas dos cristãos baptistas.
 
Contudo, é grato reconhecer-se que não houve manifestações de grande hostilidade da parte da "Comunidade Evangélica" ao aparecimento do COPIC. As velhas relações de cooperação e amizade entre as Igrejas que fundaram o novo Conselho e as Igrejas que não se identificavam com o ideário ecuménico ajudaram a que fossem mantidas pontes a nível não só pessoal mas até institucional em alguns casos. Além disso, é provável que o clima de "boa vizinhança" tenha sido preservado em muitos casos por considerações estratégicas. É que do lado das Igrejas de orientação anti-ecuménica havia muitas pessoas de formação universitária e de mente aberta que dificilmente poderiam suportar que os seus pastores assumissem posições abertamente retrógradas e de um anti-catolicismo primário; e do lado dos "ecuménicos" (Igrejas do COPIC), não faltava o conhecimento de que em suas próprias comunidades havia também quem continuasse no espírito de grande oposição ao ecumenismo.
 
A partir de fins de 1975, a Aliança Evangélica Portuguesa começou a remodelar os seus Estatutos, vindos de 1935, para poder também, como o COPIC, receber como membros, além de indivíduos, Igrejas e outras instituições evangélicas; e assim, passou a haver em Portugal duas organizações distintas para representar os não católicos: o COPIC, representando a área que por esses anos era chamada dos "cristãos ecuménicos" e a AEP, representando a área "evangélica". A cooperação entre as duas organizações dependeu um tanto de circunstâncias fortuitas, mas tem tido alguns períodos bons, como neste momento em que são realizados entre dirigentes da AEP, do COPIC e da Igreja Católico Romana encontros interconfessionais periódicos.
 
Nem todos os cristãos não católicos, é necessário dizê-lo, se aceitam representados quer pelo COPIC quer pela AEP. Já não nos referimos a essas pessoas ou grupos que, pelas suas doutrinas ou práticas não podem ser aceites, mesmo que o queiram, como membros destas organizações. Mas falamos de cristãos e de Igrejas de correntes tradicionalmente reconhecidas como parte do Cristianismo legítimo, mas que, por se oporem ao movimento ecuménico, não pedem a sua adesão ao COPIC, e por outras razões não a pedem à AEP.
 
Há a esperança que algumas das Igrejas que hoje se dizem anti-ecuménicas venham a reconsiderar a sua posição e venham a perceber as vantagens espirituais de aderirem ao COPIC, mas por enquanto a verdade é esta: são apenas três as Igrejas-membros deste Conselho, as suas fundadoras.
 
Em fins de 1975 a Igreja Evangélica Alemã, de Lisboa, pede para ter o estatuto de "observador" no Conselho, e passa a ser representada nas reuniões pelo então seu pastor, Rev. Georg Laitenberger, que foi, aliás, um cooperador muito interessado da actividade do COPIC enquanto esteve em Portugal. O Exército de Salvação em 1982 é aceite também como "observador" e entre os seus representantes o Major Emest Hoffer teve uma participação mais acentuada por esses anos.
 
 
Apesar das suas limitações em recursos humanos e financeiros, o COPIC tem desenvolvido uma acção significativa ao longo dos seus 25 anos de existência.
 
As estruturas previam a existência de um Colégio da Presidência, formado por um representante máximo de cada Igreja-membro; uma Direcção, formada por três delegados de cada Igreja-membro, e com a presença de um delegado de cada "observador"; o Secretário-Geral, que é o órgão central e executivo do Conselho; e Secretariados. Com reuniões periódicas onde os assuntos são discutidos num clima de franqueza e confiança, neste quarto de século foram tomadas decisões e realizadas actividades que se reflectiram na vida e no pensamento das Igrejas, beneficiaram espiritual e materialmente muitas pessoas carenciadas e, ousamos crer, em alguma coisa contribuiu para a mudança de mentalidades que, sem dúvida nenhuma está a acontecer em Portugal.
 
Num desdobrável publicado na década de 80 dizia-se que no COPIC as Igrejas cooperam na realização de certas actividades tais como:
 
Consulta mútua
Um "Programa Nacional" comum
Um serviço social comum
Reflexão teológica
Acção ecuménica
 
A experiência veio mostrar que alguma da actividade em comum teria de sair da responsabilidade do COPIC, como referimos no Capítulo V deste livro, mas até agora, com grande esforço, melhor ou pior, tem sido cumprido.
 
Mesmo informalmente, as Igrejas estão em constante contacto nas reuniões do Colégio da Presidência e da Direcção, em cujas agendas há uma alínea prévia de "partilha de informações". O Secretário-Geral é, por assim dizer, o "ministro da unidade", sendo geralmente convidado para participar nos Sínodos e noutros encontros importantes das Igrejas. As próprias contas das Igrejas não são matéria "tabu", pois com a maior transparência elas são apresentadas no contexto do que foi chamado o "Programa Nacional" e é agora designado por "Mesa Redonda".
 
Falando de um Serviço Social comum, que na gíria das Igrejas é referido pela palavra grega Diaconia, que quer dizer "serviço prestado a alguém", não se pode esquecer o que foi a acção do COPlC no período particularmente dramático do regresso dos então chamados retomados do ex-Ultramar. A acção das Igrejas por si próprias teria de ser muito limitada, pois além de orar, acolher e encorajar quem aqui chegava em tão difícil situação, que auxilio material poderiam dar? Pouco, claro, sendo elas Igrejas minoritárias e sendo os seus paroquianos na maioria pessoas de parcos recursos.
 
O mérito do COPIC e das Igrejas-membros foi chamar a atenção das Igrejas e Conselhos de Igrejas para este drama, pedir a intervenção do Conselho Mundial de Igrejas e da Conferência das Igrejas Europeias e, deste modo, tomar-se o COPIC canal da solidariedade de muitos povos em favor dos retomados.
 
Dirigentes do COPIC, pastores e leigos das Igrejas-membros, sem qualquer benefício, e sem espírito proselitista, antes servindo retomados católicos ou ateus, protestantes ou muçulmanos, partiram em socorro de indivíduos e famílias, socorro exercido de diversos modos, desde a doação de verbas para a solução pontual de um problema, à concessão de bolsas de estudo, à compra de uma máquina para início de uma actividade profissional, e até a "empréstimos de solidariedade", sem juro, obviamente, em que o beneficiário se comprometia a repor a importância aplicada na abertura de um restaurante, na primeira aplicação de uma oficina, logo que restaurante, oficina ou outro negócio o permitisse. A maior parte desses empréstimos de solidariedade foram honradamente repostos e voltaram a ajudar outros - embora haja registo também de fracassos.
 
 
A missão mais específica de um Conselho de Igrejas é promover o espírito ecuménico entre cristãos, isto é, trabalhar para que os cristãos e as Igrejas manifestem mais a unidade que já têm em Jesus Cristo.
 
Por vezes há vozes lamentando que o COPIC não tenha nestes 25 anos dado uma contribuição mais significativa nessa área. As pessoas que hoje têm cargos de responsabilidade neste Conselho não estão totalmente satisfeitas com o "balanço" que sobre essa acção se pode fazer, mas seria ingratidão a Deus não reconhecer que, nas circunstâncias que são as nossas, a promoção do espírito ecuménico esteve sempre nas preocupações dos que servem no COPIC e de uma forma ou outra os programas nessa área foram sempre avançando.
 
Tem havido desde o princípio deste Conselho a preocupação de cultivar um "ecumenismo aberto", que é, na verdade, o único legítimo. Por "ecumenismo aberto" queremos dizer
 
Um ecumenismo com católico romanos. com ortodoxos e com protestantes
Um ecumenismo com as hierarquias e com as bases
Um ecumenismo de reflexão e de cooperação no serviço
 
As Igrejas que hoje estão associadas no COPIC já antes da existência deste organismo tinham relações com outras Igrejas não católico romanas, e procuraram mantê-las. E foi o COPIC que teve a iniciativa, em carta de 10 de Novembro de 1982, de propor à Aliança Evangélica a realização de reuniões periódicas para cooperação. Em 18 de Fevereiro do ano seguinte fez-se o primeiro encontro em que o COPIC esteve representado por D. Fernando Soares e Revs Albert Aspey, José Salvador e Ireneu Cunha (este como Secretário-Geral) e a AEP pelo seu Presidente, Pastor Jaime Vieira e pelo Dr. Moisés Gomes. Assistiu também como observador, o Pastor Georg Laittenberg, da Igreja Evangélica Alemã.
 
Aí foi decidido haver duas reuniões de trabalho anualmente entre representantes de cada organização, e um vasto programa de cooperação, mas tem de se reconhecer que as boas intenções ficaram por aí durante algum tempo. Poucos meses depois de eleito para suceder ao Rev. Ireneu Cunha, como Secretário-Geral, o pastor presbiteriano Manuel P. Cardoso lembrou ao seu colega Jaime Vieira, da Aliança Evangélica Portuguesa, a decisão tomada, e em carta de 24 de Fevereiro de 1986 pediu à AEP que se pronunciasse sobre uma eventual reunião. Estas iniciativas não tiveram consequências, mas Deus usa também pessoas fora das Igrejas para realizar a sua obra e assim, a exigência nesse mesmo ano da Rádio-Televisão Portuguesa de que, para haver no canal 2, um programa religioso da área protestante, a condição indispensável é que houvesse uma só entidade com que a RTP tratasse, obrigou a AEP e o COPIC a sentarem-se à mesa e criarem a CERET.
 
Na Espanha a mesma exigência do Governo levou os protestantes daquele país a criarem uma Federação, mas consta que tem tanto significado como a CERET. Mais tarde surgiu também a possibilidade de haver nas escolas públicas portuguesas uma disciplina evangélica paralela da velha "Moral e Religião Católica".
 
Alguns responsáveis do COPIC eram contra a existência da "Moral e Religião Católica" e, pelas mesmas razões, consideravam que o COPIC devia opor-se a uma e a outra. Mas por consenso acabou por se aceitar que o Conselho formasse com a AEP uma nova comissão mista para representar os protestantes e evangélicos portugueses naquele assunto, a COMACEP (Comissão para a Acção Educativa Evangélica nas Escolas), que começou a actuar em Janeiro de 1988.
 
Numa e noutra Comissão tem havido colaboração ao longo dos anos, mas manda a verdade que se reconheça não tem sido grande o entusiasmo da parte das Igrejas da área do COPIC nessas actividades. Os programas televisivos quase nenhum impacto têm sobre o público e desde que começaram a ser emitidos os cultos da Igreja Universal do Reino de Deus há o sentimento em muitos de que deve evitar-se seja o que for que leve o público a confundir-nos com essa Igreja.
 
A disciplina de religião evangélica - que, na verdade se chama "Aulas de Formação Religiosa" - tem tido algum sucesso em vários lugares devido à dedicada e sábia orientação dada principalmente pela sua animadora, a professora secundária Isabel Pinheiro, mas parece manter-se em muitas pessoas da área ecuménica reservas quanto à sua legitimidade. Mas o COPIC e a AEP estão vinculados a esta disciplina até em legislação oficial.
 
 
O esforço da parte do COPIC por cooperação e unidade com a Igreja Católico Romana tem existido e tem também tido alguns resultados. Como é natural, dada a expressão numérica em Portugal da população das Igrejas que este Conselho representa, tem havido da nossa parte alguma contenção no que diz respeito a tomarmos a iniciativa de contactos e diálogo com a Igreja maioritária. Embora numa perspectiva cristã devamos rejeitar certos pressupostos das relações humanas, a verdade é que, se uma pequena organização como o COPIC prepara um colóquio, por exemplo, e convida a Conferência Episcopal Portuguesa a fazer-se representar nele, tal convite poderá ser interpretado como o pretexto para valorização da própria organização que convida.
 
Espera-se, em geral, que seja a organização claramente de maior implantação e peso social que tome a iniciativa para o estreitamente de relações e cooperação, e a boa-vontade da organização mais débil revela-se na prontidão com que responde. Quando é este que faz o convite de cooperação tal gesto é digno de redobrado valor. Foi o caso, por exemplo, da iniciativa tomada pela Direcção do COPIC na sua reunião de 21 de Junho de 1980 onde "foi decidido que o Secretário-Geral escrevesse às autoridades competentes da Igreja Católica com vista à eventual edição conjunta do programa do Oitavário, para evitar o aparecimento de duas edições em Portugal" (Acta).
 
O Rev. Ireneu Cunha executou a decisão da direcção e a partir do ano seguinte o texto preparado pelo Conselho Mundial de Igrejas (Genebra) e pela Comissão Pontifícia para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Roma), foi traduzido em comum e editado pela primeira vez pela Comissão Episcopal da Doutrina da Fé e pelo Conselho Português de Igrejas Cristãs.
 
O COPIC, por ter começado a sua actividade em 1971, já não viveu os tempos eufóricos do Vaticano II. Foi no tempo de crise de Paulo VI, com alguma regressão no movimento ecuménico, que deu os primeiros passos. Seguiu-se o brevíssimo pontificado de João Paulo I, e desde então a sua actuação é contemporânea de João Paulo II. É, pois, num período ecumenicamente difícil que o COPIC tem de desempenhar a sua missão. Atitudes consideradas de regressão da parte da Igreja de Roma fazem ressuscitar no seio das Igrejas-membros do COPIC velhos sentimentos de hostilidade, expressa, por exemplo, na falta de apoio à acima referida Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
 
Os dirigentes do COPIC mantêm-se fiéis aos objectivos fundamentais da organização, e persistem nesta e noutras iniciativas que possam aproximar os cristãos. Quando em Outubro de 1985 o "presidium" da Conferência das Igrejas Europeias (KEK) fez a sua reunião anual em Lisboa, um convite foi dirigido ao Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa para um encontro com a delegação da KEK - como, aliás, foi feita também à Aliança Evangélica Portuguesa, à Associação das Igrejas Baptista Portuguesas, à Convenção Baptista Portuguesa, à Igreja Evangélica Luterana Portuguesa, estas para enviarem um delegado ao lugar onde a reunião se fazia (Casa de Retiros da Buraca).
 
Infelizmente, só foi possível a deslocação da delegação da KEK ao Patriarcado, onde lhe foi dada uma agradável recepção por D. Serafim Ferreira da Silva, D. Albino Cleto e D. Armindo Coelho, que era na altura o presidente da Comissão que, em Portugal, se ocupa das relações da Igreja Católico Romana com outras Igrejas. Um pormenor interessante: um dos principais dignitários que presidiram à reunião da Buraca de 1985 foi o então Metropolita Alexis que, depois da dissolução da União Soviética, foi eleito para Patriarca de Moscovo e de toda a Rússia.
 
No Pentecostes de 1989 realizou-se em Basileia, Suíça, uma Assembleia Ecuménica Europeia convocado pela Conferência das Igrejas Europeias e pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa, da qual participaram mais de 700 cristãos (católico romanos, ortodoxos e protestantes).
 
De Portugal houve 21 delegados, dos quais 14 da Igreja Católico Romana e 7 das Igrejas do COPIC. No regresso, a Conferência Episcopal Portuguesa e este Conselho publicaram juntas a versão portuguesa das notáveis conclusões daquela Assembleia, que agora é preciso referir como Primeira Assembleia pois em 1994 foi decidido convocar a Segunda Assembleia Ecuménica Europeia, a que nos referiremos dentro em breve.
 
 
Foi num outro encontro realizado, também, em comum pela KEK e pelo CCEE que surgiu nova oportunidade de maior cooperação entre a Igreja Católico Romana Portuguesa e as Igrejas-membros do COPIC. Referimo-nos ao V Encontro Ecuménico Europeu, que foi efectuado em Santiago de Compostela, Espanha, de 12 a 18 de Novembro de 1991.
 
A representar a Conferência Episcopal Portuguesa estava o Bispo de Viseu, D. António Monteiro, um ano antes eleito Presidente da Comissão da Doutrina da Fé (reconduzido em 1993). Ao assumir esse cargo manifestara aos meios de comunicação social o desejo de estreitar relações com as outras Igrejas, mas foi em Santiago de Compostela que D. António Monteiro encontrou dois hierarcas de Igrejas-membros deste Conselho (D. Fernando da Luz Soares, Bispo da Igreja Lusitana, e Rev. Ireneu da S. Cunha, Superintendente-Geral da Igreja Metodista), assim como um pastor presbiteriano que estava então a trabalhar na KEK, em Genebra, Rev. José Manuel Leite, nascendo deste convívio e reflexão de alguns dias a decisão de acrescida colaboração em Portugal.
 
Desde então, têm sido levados a efeito com bastante regularidade os "Encontros Ecuménicos Nacionais". Até ao momento em que escrevemos estas linhas, no princípio de 1996, realizaram-se 10 desses encontros, em lugares diferentes, sendo alternadamente a delegação católica ou a delegação das Igrejas do COPlC ao organizar e receber o Encontro. Os meios de comunicação social que dão cobertura aos Encontros Ecuménicos Nacionais têm-se feito eco de alguma impaciência dos cristãos que querem ver da parte das Igrejas envolvidas acções concretas de cooperação fraterna. Mas se não há realizações espectaculares a registar é incontestável que estes Encontros estão a criar condições que mudarão forçosamente a situação ecuménica portuguesa. Os assuntos têm sido discutidos entre os representantes das Igrejas com muita seriedade e franqueza e aumentou enormemente o conhecimento mútuo entre as confissões.
 
O novo clima ecuménico existente em Portugal levou, em Roma e em Genebra, os responsáveis a nível mundial pela Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos a convidar participantes dos nossos Encontros Ecuménicos Nacionais a proporem o tema e produzirem o primeiro esboço do livro para essa Semana ou Oitavário de 1996. O convite foi aceite e a obra foi produzida, sendo o texto definitivo estabelecido numa reunião internacional realizada em Linda-a-Pastora. O Oitavário, celebrado de 18 a 25 de Janeiro de 1996, teve como base essa publicação sobre o tema "Olhem que estou à porta e chamo" (Apocalipse 3.20).
 
Desde os primeiros Encontros Ecuménicos Nacionais foi manifestado o desejo de que os cristãos representados pela Aliança Evangélica Portuguesa participassem também neles. Esperou-se até que a opinião pública pudesse perceber melhor o que se desejava com esta iniciativa e, em Junho de 1994 decidiu-se tomar a iniciativa de convidar a Aliança Evangélica Portuguesa a fazer-se representar num encontro informal com data a escolher.
 
Esse encontro deu-se a 18 de Outubro desse ano. A data dessa reunião, que também se realizou em Linda-a-Pastora, num convento de freiras, foi considerada histórica, embora os altos representantes da AEP que dela participassem tivessem o cuidado de requerer que não fosse considerada uma reunião "ecuménica".
 
Desde então têm continuado os Encontros Ecuménicos Nacionais, entre representantes da Igreja Católico Romana e representantes do COPIC, e Encontros lnterconfessionais da AEP. Até à data foram realizados 5 destes Encontros Interconfessionais, sendo rotativa igualmente a função de cada organização receber e preparar a agenda dos trabalhos, assim como propor o tema da discussão.
 
O ambiente fraterno e aberto com que um e outro tipo de encontros decorrem permite pensar que está a tomar-se definitivamente do passado o espírito de polémica e competição entre os cristãos portugueses.
 
No primeiro trimestre de 1996, por decisão comum do Conselho Português de Igrejas Cristãs e da Comissão da Doutrina da Fé foi traduzido em português e editado o opúsculo publicado na Suíça pela Conferencia das Igrejas Europeias e pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa para preparação da Segunda Assembleia Ecuménica Europeia, a realizar em Gratz, Áustria, de 23 a 29 de Junho de 1997. O tema desta II Assembleia é "Reconciliação: dom de Deus e Fonte de Vida Nova" e é grato sentirmos que em Portugal com a celebração dos Encontros Ecuménicos Nacionais e dos Encontros Interconfessionais estamos a criar condições para que esta palavra Reconciliação não seja vã entre nós.
 
 
No ano em que perfaz um quarto de século de existência, o Conselho Português de Igrejas Cristãs está a remodelar os seus Estatutos e a sua estrutura com vista a responder melhor aos desafios levantados com o fim do século XX e com a experiência do seu passado.
 
Os novos Estatutos tomam mais claro aquilo que sempre tem sido a orientação deste Conselho: ele não quer ser um clube fechado de Igrejas que têm uma história de cooperação tão velha como a história dessas mesmas Igrejas, mas deseja antes ser uma organização pronta a receber como membros outras Igrejas que queiram participar de um projecto de cooperação fraterna.
 
Mais ainda: desde agora, não apenas Igrejas mas também organizações eclesiásticas podem tornar-se membros deste Conselho, o que desde há muito acontece noutros países. Na Dinamarca, no Canadá ou nos Estados Unidos, para citar apenas alguns exemplos, os Conselhos Nacionais de Igrejas têm como membros organizações como o Exército de Salvação e as Uniões Baptistas. Na Hungria, um dos membros do Conselho Nacional é o Conselho das Igrejas Livres, e na Suécia um dos membros do Conselho de Igrejas é o Movimento dos Estudantes Cristãos.
 
O exame destes 25 anos de actividade levou os dirigentes das Igrejas envolvidas a perceberem a necessidade de concentrarem a acção do Conselho de Igrejas em áreas específicas e aliviá-lo de outras que, sendo indispensáveis ao testemunho das Igrejas, não devem sobrecarregar quem trabalha do Conselho de Igrejas. Nos Estatutos iniciais previa-se a existência de Secretariados e, com efeito, foram criados vários: Secretariado de Fé e Testemunho, Secretariado de Diaconia, Secretariado de Educação e Comunicação, Secretariado da Juventude, Secretariado de Ajuda lnterclesiástica. Como o número de pessoas que pode encarregar-se destas tarefas é, obviamente, pequeno, a dispersão de actividades não trazia qualquer benefício. Hoje o Conselho ficará mais simples, sem Secretariados, ocupando-se cada Igreja mais de aspectos diaconais, por exemplo, e concentrando-se o Conselho naquilo que era a área de Fé e Testemunho.
  • O Conselho Português de Igrejas Cristãs tenciona dar um novo dinamismo à sua acção, e os seus fins passam a ser assim definidos:
  • Promover uma maior compreensão e reforçar a cooperação entre as Igrejas nele associadas e em testemunho da unidade visível;
  • Habilitar as Igrejas a darem testemunho mais unânime através do estudo e reflexão sobre questões teológicas e outras relevantes para a unidade e missão da Igreja;
  • Velar pelo cumprimento dos direitos humanos em geral e do direito de liberdade religiosa em particular, e actuar de forma a que a presença na sociedade portuguesa das Igrejas-membros ou outras que requeiram a intervenção do Conselho não seja prejudicada por qualquer tipo de discriminação;
  • Manter relações de fraternidade e cooperação com o Conselho Mundial de Igrejas, com outros Conselhos e organizações nacionais ou estrangeiras, outras Igrejas e entidades que trabalhem para a reconciliação da humanidade na paz e na justiça.
A palavra de Cristo que, mais ainda do que no passado, determinará a acção deste Conselho será esta:
 
"PAI, QUE ELES ESTEJAM TÃO UNIDOS A NÓS, COMO TU O ESTÁS A MIM E EU A TI. DESTA MANEIRA, O MUNDO HÁ-DE ACREDITAR QUE TU ME ENVIASTE." (Evangelho de João 17.21)
 
Só Igrejas vivendo em unidade, na cooperação fraterna, podem dar em Portugal um testemunho vivo e eficaz de Jesus Cristo, o Salvador.
 

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